Resumo
A Revista Arqueiro, em sua 49ª edição, dedica-se a discutir os caminhos da acessibilidade e as práticas de resistência da comunidade surda no Brasil. Para aprofundar esse debate, entrevistamos a Professora Luciane Cruz Silveira, surda, Doutora em Linguística pela UERJ, Mestre em Diversidade e Inclusão pela UFF e Professora Adjunta de Libras do Departamento de Ensino Superior do Instituto Nacional de Educação de Surdos (DESU/INES). Além de sua atuação acadêmica, Luciane ocupa cargos de liderança no INES, como chefe de gabinete da Direção Geral e diretora-geral substituta, e participa de conselhos e associações que fortalecem a luta pela cidadania e pelos direitos da comunidade surda.
Entrevista
Educação e acessibilidade
Revista Arqueiro:
Professora Luciane, como sua experiência como mulher surda e pesquisadora influencia sua atuação na formação de professores bilíngues e na promoção da educação inclusiva?
Luciane Cruz Silveira:
Minha experiência como mulher surda e pesquisadora influencia profundamente minha atuação na formação de professores bilíngues e na promoção da educação inclusiva. Como pessoa surda, trago a perspectiva de quem vivencia diariamente os desafios da comunicação, do acesso linguístico e da luta pelo reconhecimento da Libras. Ao longo da minha trajetória, estimulei processos de formação inicial e continuada, criando e desenvolvendo, junto aos professores, estratégias pedagógicas para uso em sala de aula. Esse trabalho colaborativo permitiu que professores ouvintes evoluíssem satisfatoriamente em Libras, chegando a produzir vídeos para suas próprias disciplinas e a promover práticas mais acessíveis, beneficiando diretamente os alunos surdos e reduzindo barreiras linguísticas.
Formar professores bilíngues significa prepará-los não apenas para aprender sinais, mas para compreender o papel político, cultural e identitário da Libras, reconhecendo o aluno surdo como sujeito de direitos linguísticos. É imprescindível que as políticas públicas garantam aos surdos o direito à sua língua de conforto e de instrução, assegurando, ao mesmo tempo, formação inicial e continuada de qualidade aos profissionais que atuam na educação bilíngue e na educação inclusiva.
Revista Arqueiro:
O Glossário de Ciências em Libras é uma contribuição pioneira. De que forma iniciativas como essa ampliam o acesso ao conhecimento científico para estudantes surdos?
Luciane Cruz Silveira:
O Glossário de Ciências em Libras representa uma contribuição pioneira porque rompe uma das principais barreiras linguísticas enfrentadas por alunos surdos: a ausência de acesso ao vocabulário científico em sua própria língua. Trabalhei durante 12 anos em uma escola inclusiva em Petrópolis/RJ, que atendia cerca de dez alunos surdos. Em uma aula de Ciências, a professora solicitou que os alunos trouxessem de casa uma garrafa PET e areia, com o objetivo de confeccionar uma ampulheta. Nenhum dos três alunos surdos presentes compreendeu os sinais de garrafa e areia. Após a explicação do professor, mediada pelo intérprete, apenas um deles conseguiu identificar o significado de “garrafa” e tentou explicar aos colegas. Um dos alunos surdos, continuou sem conseguir associar o significante “garrafa” ao seu referente concreto. Quanto ao termo “areia”, nenhum dos três alunos conseguiu compreendê-lo, mesmo após várias explicações, inclusive da própria professora de Libras. Minha proposta consistia em uma estratégia pedagógica na qual a professora de Libras trabalhava junto à professora de cada disciplina em sala de aula, com o objetivo de esclarecer conceitos e favorecer o desenvolvimento dos alunos.
Esse episódio demonstra de forma evidente a urgência de materiais bilíngues que tratem o vocabulário científico de forma visual, contextualizada e acessível. Nesse sentido, minha pesquisa contribui por meio da criação de um Glossário de Ciências em Libras. O glossário atua como um recurso didático que informa, apoia e desenvolve projetos em Libras, auxiliando na aquisição da linguagem e no aprimoramento da percepção visual. Trata-se de um material bilíngue, organizado com conteúdo em Libras e em português, favorecendo a compreensão, fortalecendo a identidade linguística dos alunos surdos e assegurando equidade linguística e direitos linguísticos previstos nas políticas de educação de qualidade.
Revista Arqueiro:
Quais avanços em acessibilidade educacional a senhora considera mais significativos nos últimos anos?
Luciane Cruz Silveira:
Nos últimos anos, considero que alguns avanços em acessibilidade educacional foram especialmente significativos. O primeiro deles diz respeito ao reconhecimento, cada vez mais consolidado, da Libras como língua de instrução para alunos surdos, o que fortalece as políticas de educação bilíngue e amplia a presença de professores bilíngues e de professores surdos nas escolas. Esse avanço permitiu ampliar o acesso linguístico e reduzir barreiras linguísticas que historicamente impediam a participação plena desses alunos.
Também destaco o crescimento das formações continuadas voltadas para professores ouvintes, que passaram a compreender melhor a estrutura gramatical da Libras, bem como sua relação com a cultura e a identidade linguística da comunidade surda. Esse conhecimento permite aprimorar estratégias metodológicas e desenvolver materiais didáticos mais adequados ao ensino da língua de sinais. Esse movimento tem impacto direto na qualidade da educação oferecida aos alunos surdos.
Embora ainda existam desafios, esses avanços indicam que estamos caminhando para uma educação mais equitativa, que reconhece direitos linguísticos e promove inclusão de forma mais efetiva.
Cidadania e direitos
Revista Arqueiro:
A senhora participa de conselhos municipais, estaduais e nacionais ligados à educação de surdos. Como sua vivência pessoal fortalece sua atuação nesses espaços de decisão?
Luciane Cruz Silveira:
Minha participação em conselhos municipais, estaduais e nacionais relacionados à educação de surdos é profundamente marcada por mais de 25 anos de atuação na área. Atuei como representante do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Petrópolis, representei a FENEIS no Conselho Estadual e sou representante nacional da Comissão Nacional de Educação Bilíngue de Surdos (CNEBS), lutando como representante da comunidade surda. Essa trajetória me permite compreender, de forma direta, as barreiras linguísticas, a acessibilidade linguística, bem como os desafios educacionais e atitudinais que ainda persistem no cotidiano escolar.
Durante 12 anos, atuei como presidenta da Associação de Surdos, experiência que me mostrou o quanto os debates políticos nem sempre consideram, de forma adequada, a educação de surdos e a perspectiva da comunidade surda. Esses desafios reforçaram minha compreensão sobre a importância de políticas públicas que assegurem acessibilidade linguística, diretrizes claras e uma educação bilíngue de qualidade, garantindo também o pleno exercício da cidadania.
Minha vivência legitima a necessidade de assegurar que pessoas surdas estejam representadas nos espaços de decisão, especialmente porque tais decisões impactam diretamente suas vidas e as vidas das comunidades surdas.
Revista Arqueiro:
Quais conquistas recentes da comunidade surda a senhora destacaria como marcos importantes de cidadania?
Luciane Cruz Silveira:
Nos últimos anos, a comunidade surda conquistou avanços significativos que considero marcos importantes para o fortalecimento da cidadania. Entre eles, destaco a ampliação das políticas públicas de educação bilíngue, que reconhecem a Libras como língua de instrução e garantem o direito de pessoas surdas a aprenderem em sua primeira língua, valorizando a identidade e a cultura linguística.
Esses avanços são resultado da luta histórica da comunidade surda, em diálogo com instituições e associações, e do percurso das legislações brasileiras que consolidam direitos. A aprovação da Lei nº 14.191/2021, que institui a modalidade de educação bilíngue de surdos, representa uma conquista decisiva, pois assegura o direito linguístico dos alunos surdos.
Outro marco fundamental é o aumento da presença de profissionais surdos na área da educação, o que constitui um elemento essencial para a construção de modelos positivos para alunos surdos. Hoje, vemos um número crescente de surdos atuando como professores, coordenadores, pesquisadores, intérpretes educacionais e lideranças comunitárias. Essa representatividade influencia diretamente a formulação de políticas mais sensíveis às necessidades reais da comunidade.
Esses avanços evidenciam um processo contínuo de reconhecimento da pessoa surda como sujeito de direitos, ampliando sua autonomia, sua participação social e o exercício pleno da cidadania.
Revista Arqueiro:
Quais lacunas ainda precisam ser preenchidas nas políticas públicas voltadas para a comunidade surda?
Luciane Cruz Silveira:
Embora haja avanços importantes nas políticas públicas voltadas para a comunidade surda, ainda existem lacunas significativas que precisam ser enfrentadas para garantir uma educação verdadeiramente bilíngue. Uma das principais lacunas diz respeito à falta de implementação efetiva das políticas já existentes. A legislação reconhece a Libras e assegura direitos linguísticos, mas a maioria das escolas ainda não conta com professores fluentes, materiais bilíngues de qualidade e estratégias metodológicas adequadas ao ensino da língua de sinais.
Além disso, muitos professores não possuem vivência na comunidade surda, o que fragiliza a compreensão da subjetividade, da cultura e da identidade linguística dos alunos, resultando na manutenção de barreiras linguísticas para os alunos surdos. Muitos profissionais ouvintes chegam à escola sem preparo suficiente para atuar de forma bilíngue, permanecendo restritos à teoria e sem conhecimento prático da Libras. Segundo Silveira (2002, pg. 63),
De fato, muitos conhecem e tem um ótimo discurso sobre a teoria, mas não é o que acontece na prática. De nada adianta ter o conhecimento teórico se na prática, quando observamos que as ações no chão da escola não chegam nem perto de corroborar com a teoria.
A relevância de ser um professor bilíngue fluente em Libras, enquanto língua de instrução, está no fato de que essa fluência torna possível estabelecer vínculos comunicativos reais com os alunos, aspecto fundamental no ambiente escolar. Também é necessário que o professor participe das práticas cotidianas da comunidade surda, adquirindo experiência linguística e cultural em contextos sociais, políticos e culturais que permeiam a Libras.
A presença de professores surdos, juntamente com professores bilíngues, é essencial para promover equidade e fortalecer práticas pedagógicas autenticamente bilíngues, assegurando uma educação de qualidade para os alunos surdos.
Práticas de resistência
Revista Arqueiro:
Em sua experiência, como a comunidade surda se organiza para reivindicar direitos e resistir às barreiras impostas pela sociedade?
Luciane Cruz Silveira:
Pela minha experiencia, percebo que a comunidade surda se mobiliza de maneira coletiva e articulada para garantir seus direitos e enfrentar as barreiras linguísticas presentes na sociedade. Essa mobilização acontece por meio de associações de surdos, lideranças surdas e espaços de formação que fortalecem tanto a identidade surda quanto o pertencimento cultural da comunidade surda.
A resistência se expressa especialmente na defesa da Libras como língua de instrução e na preservação de práticas culturais que reforçam a importância da Libras no cotidiano. Esses espaços também funcionam como momentos de reflexão sobre desigualdades enfrentadas pelos surdos. A maioria dos ouvintes desconhecem essa realidade, o que acaba gerando desvalorização, atitudes capacitistas e falta de empatia. É importante ressaltar que nossos direitos não são favores, mas garantias legais e fundamentais.
A organização da comunidade surda é marcada por resistência, coletividade e visão política. Trata-se de um movimento contínuo de reivindicação de direitos, combate às barreiras linguísticas e afirmação de que a Libras é elemento central para o exercício pleno da cidadania e para a participação ativa na sociedade e na própria comunidade surda.
Revista Arqueiro:
Que papel o INES desempenha nesse processo de resistência e afirmação da identidade surda?
Luciane Cruz Silveira:
Sou surda. Atuei como assessora da Direção-Geral do INES e atuo como chefe de Gabinete da Direção-Geral e como diretora-geral substituta. Esses desafios me permitiram aprender muito, fortalecendo meu papel, minhas funções, minha firmeza e minha resistência. O INES desempenha um papel fundamental no processo de resistência e afirmação da identidade surda no Brasil. Como primeira instituição oficial dedicada à educação de surdos no país, tornou-se um espaço histórico de construção e difusão da língua de sinais, de formação de professores e pesquisadores, e de fortalecimento da comunidade surda em todo o Brasil. Sua atuação está alinhada à perspectiva bilíngue e às práticas pedagógicas que valorizam a Libras e a identidade surda, consolidando-se como um espaço de resistência.
Historicamente, muitos alunos permaneciam internados no Instituto, o que favorecia a troca de experiências entre alunos de diferentes regiões do país e contribuía para a aquisição e fortalecimento da Libras como língua de uso cotidiano. Inspetores e professores surdos desempenharam papel essencial nesse processo, ensinando artes, pintura, escultura e transmitindo valores culturais da comunidade surda.
O INES abriga parte importante da memória da comunidade surda, sem essa instituição, grande parte dessa história não teria sido preservada. Por isso, o INES é crucial nas lutas históricas da comunidade, abrindo caminhos para a educação bilíngue em todo o Brasil e se mantendo como um marco de resistência, identidade surda e continuidade cultural.
Revista Arqueiro:
Que estratégias têm sido mais eficazes para enfrentar barreiras e afirmar a identidade surda no Brasil?
Luciane Cruz Silveira:
As estratégias que vêm sendo adotadas têm se mostrado eficazes para enfrentar barreiras e afirmar a identidade surda no Brasil, especialmente quando articulam língua, cultura e participação ativa da comunidade surda. Um ponto essencial é o fortalecimento da educação bilíngue, com a Libras como língua de instrução e o português como segunda língua, garantindo ao aluno surdo acesso linguístico ao currículo e ao conhecimento.
Entretanto, ainda existe um desafio relacionado à escrita do português, que muitas vezes permanece em nível apenas razoável, mantendo barreiras linguísticas dentro e fora da comunidade escolar. Por isso, torna-se necessário investir em estratégias mais eficazes e em materiais bilíngues de qualidade, com a Libras como língua de instrução e o português como L2, de modo a fortalecer a competência linguística dos alunos surdos. Esses recursos são essenciais para reduzir barreiras e apoiar o desenvolvimento acadêmico de maneira mais equitativa. Essas ações fortalecem a luta por direitos linguísticos e pela identidade surda, promovendo avanços rumo a uma sociedade mais justa.
Encerramento
Revista Arqueiro:
Que mensagem gostaria de deixar para jovens surdos que buscam ocupar espaços de liderança e reivindicar seus direitos?
Luciane Cruz Silveira:
Aos jovens surdos que desejam ocupar espaços de liderança e defender seus direitos, deixo uma mensagem: valorizem sua voz em Libras, preservem sua língua e fortaleçam sua identidade surda. A presença de vocês é fundamental para transformar a sociedade e garantir que a Libras seja respeitada e reconhecida como parte da vida da comunidade surda. Cada participação, cada posicionamento e cada conquista contribuem para o avanço coletivo.
É essencial que os jovens busquem formação, conheçam seus direitos e se envolvam em movimentos da comunidade surda. Esses espaços são importantes para desenvolver liderança, compreender a luta política e aprender estratégias de resistência. A Feneis mantém grupos de jovens em várias regiões do país, onde se discute identidade, cultura, combate ao capacitismo e ao ouvintismo, além de fortalecer o protagonismo surdo.
Acreditem nas capacidades que vocês possuem. A luta é contínua, mas cada passo abre oportunidades para outras gerações. Mantenham-se firmes, orgulhosos de sua língua, de sua cultura e da identidade surda que carregam. A liderança de vocês é transformadora, ela inspira, rompe barreiras e constrói caminhos novos para toda a comunidade surda.
Revista Arqueiro:
Quais perspectivas futuras a senhora vislumbra para a educação bilíngue de surdos e para a plena acessibilidade no país?
Luciane Cruz Silveira:
As perspectivas futuras para a educação bilíngue de surdos no Brasil indicam possibilidades significativas de avanço, desde que as políticas públicas sejam aprimoradas e que as ações conduzidas pela própria comunidade surda continuem se fortalecendo. A tendência é que a Libras seja cada vez mais assumida como língua de instrução e garantindo acesso linguístico ao currículo escolar, com a Libras como L1 e o Português como L2.
É fundamental que crianças surdas iniciem seu processo de aprendizagem nas duas línguas desde cedo, desenvolvendo competência linguística em Libras e português de maneira equivalente ao desenvolvimento das crianças ouvintes. Esse percurso favorece o hábito de leitura, melhora a compreensão textual e reduz barreiras linguísticas ao longo da escolarização. Além disso, contribui para práticas pedagógicas mais eficazes e ambientes de aprendizagem mais significativos, apoiados em conhecimentos linguísticos, culturais e metodológicos específicos para o ensino de Libras e de Português como segunda língua.
Uma prática pedagógica importante é incentivar que crianças surdas gravem vídeos em Libras, assistam às próprias produções e realizem a tradução para o português. Essa atividade cotidiana favorece a autonomia, amplia a consciência linguística e fortalece o domínio das duas línguas.
No campo da acessibilidade, espera-se o aumento da produção de materiais bilíngues de qualidade como glossários, vídeos e livros que ampliem o acesso ao conhecimento nas diferentes áreas curriculares. Esses materiais valorizam a identidade surda, promovem o bilinguismo e reforçam o compromisso com a equidade linguística para os alunos surdos.
Conclusão
A trajetória da Professora Luciane Cruz Silveira é marcada pela resistência e pela construção de caminhos de acessibilidade e cidadania. Sua atuação acadêmica, institucional e política reflete o compromisso com a comunidade surda e inspira novas gerações a lutar por uma sociedade mais inclusiva e justa.
