Resumo
Há edições que não apenas reúnem textos; elas reúnem mundos. Esta edição 49 da Revista Arqueiro nasce como um território de encontros: entre educação e política, entre corpo e linguagem, entre silêncio imposto e palavra que se liberta. Aqui, cada artigo é uma fresta aberta para compreender a experiência surda não como ausência, mas como presença que reivindica espaço, língua, cidadania e dignidade.
O tema que nos move, Surdos: acessibilidade e práticas de resistência – entre educação, cidadania e direitos, exige coragem. Exige escuta. Exige que olhemos para as mãos que narram, para os olhos que leem o mundo, para os corpos que resistem. E é isso que os autores desta edição fazem: iluminam caminhos, tensionam estruturas, denunciam ausências e anunciam futuros possíveis.
A seguir, convidamos você a percorrer cada texto como quem atravessa uma paisagem viva, onde cada autor deixa marcas, memórias e gestos que ecoam.
Abrimos a edição com um estudo que pulsa urgência. Elaine Santos mergulha nas percepções de estudantes surdos sobre o atendimento no SUS e na DIMO/INES, revelando contrastes que ferem e convocam. A autora expõe, com rigor e sensibilidade, a desigualdade comunicacional que atravessa a saúde pública: profissionais que não dominam Libras, ausência de intérpretes, diagnósticos comprometidos, insegurança e medo. Ao mesmo tempo, evidencia como a DIMO/INES – espaço onde a Libras é língua de cuidado – produz acolhimento, vínculo e dignidade. O texto é um chamado ético: sem acessibilidade linguística, não há saúde; sem língua, não há cuidado.
Na sequência, as pesquisadoras Jovânia e Valéria exploram o teatro de sombras com alunos surdos, em que a luz e a sombra se tornam linguagem. As autoras exploram o teatro de sombras como recurso sensorial, artístico e pedagógico capaz de ampliar o letramento de crianças surdas. A narrativa é delicada e potente: silhuetas que ganham vida, histórias que se projetam, mãos que contam o que a voz não alcança.
As autoras mostram que alfabetizar não é apenas ensinar letras; é ensinar a ver, a imaginar, a interpretar o mundo. E, para crianças surdas, o teatro de sombras é mais que técnica: é território de pertencimento visual.
Em Brinquedoteca: ludiciando e incluindo os nomes dos brinquedos em Libras, Alice, Kellyson, Mariana e Sônia nos mostram que o brincar pode tornar-se política. O grupo de autores apresenta uma brinquedoteca inclusiva como espaço de acolhimento, cultura e construção simbólica. Ao inserir os sinais dos brinquedos em Libras, o projeto transforma o lúdico em ponte comunicativa, permitindo que crianças surdas encontrem sua língua no espaço do brincar – e que crianças ouvintes aprendam a brincar com as mãos, com o corpo, com o olhar.
O texto emociona ao narrar a leitura de O Patinho Feio em Libras, quando os estudantes surdos se reconhecem na história do excluído que, finalmente, é visto. É literatura, é infância, é resistência.
Em Praticando e incluindo: facilitadores comunicativos e a prática da Libras, os autores investigam como facilitadores comunicativos – imagens, expressões faciais, gestos, recursos visuais – podem transformar a comunicação entre surdos e ouvintes. O texto é um manifesto pela simplicidade que inclui: uma imagem bem escolhida, uma expressão clara, um gesto intencional podem abrir portas que a língua oral fecha.
O episódio narrado sobre a palavra “superior”, confundida por um aluno surdo como arrogância, e não como nível de ensino, revela o quanto a mediação visual é essencial para evitar equívocos e construir sentidos compartilhados. É um texto sobre empatia, sobre presença e sobre o poder de ensinar com o corpo inteiro.
Cinco professores surdos, em Relato de experiência: Libras e Literatura em Libras no SEF1/INES, narram suas práticas pedagógicas com crianças do Ensino Fundamental I. O texto é uma celebração da visualidade surda: filmes, desenhos, narrativas sinalizadas, rodas de conversa, produção de histórias. A exibição do filme Luca torna-se um laboratório de linguagem, identidade e imaginação.
Aqui, a Libras não é apenas conteúdo; é vida. É língua de afeto, de criação, de pertencimento. Ana Paula, Adilson, Andreza, Maria Auxiliadora e Roberta nos mostram que quando professores surdos ensinam crianças surdas, algo profundo acontece: a língua encontra seu lugar de origem.
Principais desafios de sujeitos surdos para obtenção e renovação da CNH, este é o título do artigo que expõe uma ferida pouco discutida: a inacessibilidade no processo de habilitação de condutores surdos. Sabrina e Osilene revelam, com precisão e sensibilidade, como a falta de intérpretes, a linguagem técnica dos formulários, a ausência de materiais acessíveis e o desconhecimento das leis tornam o direito de dirigir um percurso desigual.
O texto denuncia, mas também aponta caminhos: cumprimento das resoluções, formação de profissionais, tecnologias assistivas, respeito à Libras como L1. É um estudo que amplia o debate sobre cidadania e mobilidade.
Na sequência, encontramos com Uma proposta de contribuição para a atuação de professores de Química e de TILSP – produção de um guia. Neste trabalho, Débora e Célio apresentam um guia cuidadosamente elaborado para apoiar professores de Química e intérpretes de Libras no ensino de estudantes surdos. O texto articula pesquisa bibliográfica, entrevistas com especialistas e a experiência da autora como professora e intérprete.
O resultado é um material robusto, sensível e necessário, que oferece estratégias visuais, metodologias acessíveis, recursos didáticos e orientações para fortalecer a parceria professor–intérprete. É ciência, é pedagogia, é compromisso com a equidade.
Encerramos esta edição com a voz – e as mãos – de Luciane Cruz Silveira, professora surda, pesquisadora, líder, referência nacional na educação bilíngue. Sua entrevista é mais que um depoimento: é um manifesto. Luciane fala sobre políticas públicas, formação docente, identidade surda, cidadania, luta coletiva e futuro.
Ela nos lembra, com a firmeza de quem vive a própria pesquisa no corpo, que a Libras é direito, não concessão; que a educação bilíngue é urgência, não alternativa; que a presença de professores surdos é política, não detalhe; e que a resistência é coletiva, nunca solitária.
E quando Luciane nos diz isso, não o faz apenas como pesquisadora ou docente, mas como mulher surda que atravessou escolas que não a ouviam, instituições que não a compreendiam, políticas que demoraram a reconhecê-la. Sua trajetória, marcada por décadas de atuação em conselhos, associações, movimentos e espaços de decisão, transforma cada frase em testemunho e cada argumento em memória viva.
Ela nos fala a partir do lugar de quem abriu caminhos para que outras pessoas surdas ocupassem espaços antes negados. Fala como quem conhece, por dentro, a luta por acessibilidade linguística, a urgência da formação docente, a importância da representatividade surda nos espaços de poder.
Sua entrevista presenteia esta edição como um farol – firme, luminosa, inegociável – iluminando não apenas o que já conquistamos, mas, sobretudo, o que ainda precisamos conquistar.
